segunda-feira, 25 de maio de 2026

Archives d’anthropologie criminelle

Poucas publicações científicas do final do século XIX exerceram influência tão ampla e duradoura sobre os estudos do crime quanto os Archives d’anthropologie criminelle et des sciences pénales. Fundada em 1886, em meio ao intenso florescimento das ciências criminais europeias, a revista tornou-se um espaço de debate entre médicos, juristas, sociólogos, psicólogos e magistrados interessados em compreender o fenômeno criminal em toda a sua complexidade. Mais do que um periódico especializado, os Archives constituíram um verdadeiro laboratório intelectual da criminologia nascente, acompanhando as transformações científicas, jurídicas e sociais de uma época fascinada pela questão do crime e de seus protagonistas.

Os Archives foram fundados em 1886 por Alexandre Lacassagne (1843-1924), médico legista, professor em Lyon e figura central da chamada “Escola de Lyon”, que influenciou fortemente o desenvolvimento da medicina legal e da polícia científica na França e ajudou a dar um tom mais sociológico à criminologia francesa, em contraste com o biologismo italiano.

Lacassagne era um opositor da teoria do “criminoso nato” de Cesare Lombroso da chamada Escola Italiana. Ele defendia uma abordagem multifatorial, com ênfase no meio socia, do qual disse ser o “caldo de cultura do crime”, atuando, contudo, ao lado de fatores individuais.

Os Archives surgiram no contexto dos congressos internacionais de antropologia criminal. O primeiro foi em Roma, 1885. Tratava-se de criar um espaço científico para o debate transdisciplinar sobre crime, criminoso, justiça penal, medicina legal e psicologia.

Gabriel Tarde (1843-1904), magistrado, sociólogo e psicólogo social, juntou-se como co-diretor em 1893. Tarde trazia contribuições importantes sobre a imitação, a psicologia das multidões e uma boa crítica ao biologismo extremo. A colaboração entre Lacassagne e Tarde fortaleceu o caráter interdisciplinar da publicação que tratava de medicina, direito, sociologia, psicologia etc..

A revista mudou ligeiramente de título ao longo dos anos ― por exemplo, incluindo “de criminologie et de psychologie normale et pathologique”), refletindo

Os Archives funcionavam como uma “mina de documentos” monumental: registravam observações científicas, casos judiciares famosos, mudanças legislativas em vários países e debates teóricos. Era um verdadeiro repositório do que se pensava sobre criminalidade no final do século XIX e início do XX.

Foi a primeira revista científica francófona dedicada à criminologia, aqui entendida em seu sentido mais amplo, como ciência do crime e do criminoso. Teve audiência internacional e reuniu colaboradores de diversos campos. Foi publicada até 1914, interrompida pela I Guerra.

Ainda hoje, os Archives permanecem como uma fonte primária de valor extraordinário para pesquisadores das mais diversas áreas. Em suas páginas, não apenas sobrevivem casos célebres, teorias esquecidas e controvérsias científicas de outro tempo, mas também as múltiplas formas pelas quais o crime foi pensado, interpretado e debatido na modernidade. Ler essa revista é reencontrar uma época em que medicina, direito, sociologia e psicologia buscavam, cada uma à sua maneira, decifrar os enigmas da criminalidade. É também perceber que muitas das questões ali formuladas continuam, sob novas roupagens, a desafiar os estudiosos contemporâneos.

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